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Arte do Riso: Uma viagem para dentro de si

Meu livro começa a nascer…segue relato da experiência vivida na Oficina Arte do Riso, o texto esta bem literário, vamos ver o que a ACADEMIA pensa a respeito.  Última versão da proposta  = Entregue

Que venha a pré-banca agora! =)

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Quatro dias sem bebidas, cigarros, sexo ou qualquer outro tipo de vício. Tudo que limitasse uma profunda imersão para dentro de si mesmo nos foi negado, principalmente a fala. A missão era começar a conhecer e lidar com os monstros internos, expondo nosso ridículo e brincando com nossas misérias.

Passamos a vida toda sendo repreendidos… “Não de gargalhadas!”, “Não fale com estranhos!”, “Cuidado com a sinceridade!”, “Lave antes de comer!”… A espontaneidade foi sendo sufocada pelas regras da civilização moderna. E nessa metamorfose, as crianças estão perdendo sua infância cada vez mais cedo.

Na Oficina Arte do Riso 2012, ministrada pelo poeta e palhaço Claudio de Albuquerque, dos dias 06 á 09 de junho, o objetivo dos participantes era entrar em “contato com a essência do ridículo através da poesia de cada um”. Lá não se aprende a ser palhaço, mas sim, a ter um novo olhar sobre si mesmo e sobre a sociedade onde vivemos.

Ansiedade e medo. Curiosidade e entusiasmo. Não saber o que viria pela frente causou um mix de sentimentos, me deixando pouco segura. Mas afinal, porque eu deveria estar preparada? Por que eu sempre tenho que me preparar para tudo? Por que não posso deixar minha vida fluir naturalmente? Eis os sentimentos que me assomaram nas primeiras horas de vivência.

Mas afinal, quem não tem medo de passar por ridículo, tolo, ignorante ou perdedor diante daquele que ama ou da sociedade em que vive? Cotidiano corrido, atitudes “automáticas”, uma sociedade feita de leis e padrões que não entendemos, mas obedecemos. Repressão. Censura. Vidas estruturadas em valores patriarcais. Eu pensava que todo mundo temia o ridículo, até ser apresentada a arte clownesca.

Ao encontro do EU

As horas foram passando, e vi em mim uma ânsia de conhecer novos lugares, pessoas e experiências. Sentia-me (e talvez ainda sinta) fisicamente amarrada, mas quando me olhei de fora, vi o reflexo de alguém que primeiro anseia conhecer a si mesmo. Inconscientemente altruísta, reconheci que adaptava minha vida ao ritmo dos outros, sem perceber que me sufocava aos poucos. Sentimentos não vividos, vontades não expressadas, e partes do corpo não exploradas. A partir desse raio X, percebi que começava a me abrir para os dias de vivência.

 Ser palhaço é viver em constante aprendizado. No circo, essa arte nunca foi praticada por qualquer um, ou se trata de um talento nato, uma herança/tradição de família, ou é um artista circense que já não possui mais condições de seguir o ritmo que outros tipos de espetáculos exigem. Na Oficina Arte do Riso reaprende-se a despertar os sentidos, para ver o mundo de outra forma. Passamos a observar quem passa por nós pelas ruas, a sentir os diversos cheiros e aromas do dia, ouvir os pássaros em meio ao som das buzinas e motores, e saborear o tempero do arroz.

A mais valiosa lição aprendida foi que “Palhaço não faz graça, ele vive em Estado de Graça”. Por isso não basta praticar essa arte, é preciso ser, é preciso aceitar como filosofia de vida.  O palhaço cria seu próprio mundo, e se alimenta do riso causado pela ridicularização de suas próprias misérias.  Ele não é um personagem, é o “lado B” do ser humano. Como um ser iluminado, ele depende dos raios emanados pelo homem, pois sem a essência dele em sua totalidade, o palhaço é apenas sombra. Um eterno perdedor, um retrato daquilo que ninguém quer ser. Com espírito subversivo, seu maior talento é colocar o “dedo na ferida”. Mas quando o espetáculo termina, a máscara cai e ele volta à realidade, o mundo não é mais seu e a tristeza quase o engole.

Ausência das palavras

Para tudo que fazemos há uma justificativa verbal desnecessária. Sempre tentamos convencer as outras pessoas a serem e sentirem o que somos e sentimos, mas há coisas na vida que não foram feitas para dizer, traduzir ou explicar. Durante toda a Oficina Arte do Riso as palavras foram reprimidas para que o pensamento se libertasse.

A essência

O tempo corre rápido demais, e é comum a sensação de não ter vivido de verdade cada instante, cada oportunidade, cada amor ou amizade. E ai, descobre-se que não há quem saiba aproveitar mais vida do que uma criança. Sua ingenuidade, inocência, sinceridade e espontaneidade se tornaram as principais referências do palhaço.

Os limites e instintos foram testados durante a vivência. Comemos o que mais gostamos e o que mais odiamos, rimos e choramos, tivemos medo e coragem, ficamos felizes e irritados, para descobrir como encontrar o equilíbrio em meio ao caos, e aprender a domar os próprios monstros.

Sempre alerta e pronto para todas as ocasiões, o material do palhaço é o cotidiano, os fatos, o presente, o alcançável. A vida é um jogo incansável, no qual sua única escolha é aprender as regras e usar a criatividade para não ser vencido por si mesmo.

A grande festa

No fim do quarto dia já éramos todos amigos de infância, vestimo-nos de ridículos e saímos a andar por várias quadras. Uma ponta de tristeza nos acometia, pois chegara o momento de voltar para a realidade. Na bagagem o nariz de palhaço, as boas lembranças e as lições aprendidas. Corpo, mente e alma, todos expandidos e abertos para os estímulos do mundo ao redor.

Caos, pânico… o homem está doente porquê quer ser adoentar. Mas o riso ainda persiste em sua brava luta contra o mau humor. Drogas, remédios, bebidas… Os limites são extrapolados em busca de excitação e prazer. Mas os efeitos passam rápido e o desejo nunca é saciado.

Até que descubro que a fonte do orgasmo da vida esta na dança, na música, no riso, no corpo que vibra, se expressa e se liberta. Viver é sentir, e não, falar. As palavras são vazias, mentirosas e manipuladoras. Mas o corpo é sincero. Dos olhos ao dedão do pé, toda a alma pulsa e vibra de alegria, o sangue corre e mantém o fluxo da vida.

 

 

 

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Arteiragem – Parte II

Inspirações

Quando criança desejava ser motorista de ônibus, acreditando que os botões de pressão que abriam e fechavam as portas eram capazes de dar todo poder sobre a vida dos passageiros, ele imaginava o que aconteceria se o motorista parasse o ônibus e não quisesse mais abrir as portas, todos poderiam ficar presos ali para sempre. Esse poder o fascinava.

Claudio diz que nunca tinha pensado em ser ator, mas que por volta dos cinco anos, construía cidades em seu quarto e gostava de passar dias coordenando-a. Uma mostra de que dirigir (histórias, peças e espetáculos) já era parte de sua essência.

Grandes pessoas inspiraram seu trabalho, começando pelo avô Nemias Alencar e o incentivo de sua mãe Luzinete. A sorte (e dedicação) também o levou a conhecer ícones da cultura popular brasileira como o Mestre Salustiano, que foi ícone do Maracatu Rural, bóia fria, analfabeto e contra a vontade de muitos, secretário da cultura em Pernambuco. Mestre “Salu” lhe ensinou lições valiosas como o respeito a família, aos mais velhos e a tradição de seu povo, ele foi o grande responsável por fazer Claudio se apaixonar por cultura popular.

Em 2001, graças a sua participação no Festival Internacional de Palhaços “Risos da Terra” ocorrido em João Pessoa/PB, Claudio Albuquerque fez amizade com o dramaturgo Ariano Suassuna, ufanista e eterno defensor da cultura nordestina, chegando a trabalhar junto com ele na montagem do espetáculo “O santo e a porca”. Anos depois, quando o dramaturgo veio a Jundiaí para a inauguração da Casa da Cultura Ariano Suassuna, os dois se encontraram e Ariano teceu elogios ao arteiro jundiaiense. Segundo Claudio, essa benção foi responsável pelo começo do sucesso de seu trabalho na cidade.

Além dessas referências na cultura popular, o artista também flerta com muitas outras expressões artísticas como a poesia de Manuel de Barros, o cinema de Luiz Fernando Carvalho, a literatura de Ferreira Gullar e até mesmo a vida e obra de Frida

Kahlo. Mais do que peças, com essa bagagem o ator busca faz experimentos, sempre buscando o teatro como vivência cênica.

O Arteiro Jundiaiense

Desde que chegou a Jundiaí, Claudio Albuquerque não parou mais. Em 2008 fez de sua casa um espaço que oferece cursos de teatro, dança e música, nascendo assim o Ateliê Casarão. De portas abertas o lugar acolhe jovens de segunda a segunda, dando a eles “Uma alternativa de espaço, e não um espaço alternativo.”

Além disso, o ator divide seu tempo dando aulas de teatro na Casa da Cultura e participando do Corpo Estável do Polytheama, teatro que completa cem anos em Jundiaí. Tem projetos futuros como regionalizar a peça de rua Pernambuco em Quatro atos, e fazer algo inspirado na artista Frida Kahlo.

Agora em 2011, Claudio publicou pela primeira vez uma de suas poesias, e a partir dai, o desejo de se lançar no mundo das letras cresceu. Segundo ele, a escrita em sua vida é uma compulsão, sempre escreveu, mas nunca mostrou a ninguém. Sua escrita é sem compromisso, assim como se faz em um diário adolescente.

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