Vitamina C! (Desafio 1)

Até meus 10 anos eu não via o mundo da forma como ele realmente era. Por não ter vizinhos e não poder sair na rua, eu criava meu próprio mundo com papel e canetinhas coloridas, às vezes, usava o kit de massinhas para montar minhas esculturas surrealistas, e outras vezes, as horas eram preenchidas diante da TV. Dancei ballet, mas tive que parar por culpa do pai desempregado. Meus sonhos mudavam constantemente, uma hora queria ser paquita da Xuxa, outra hora, Chiquitita, ou quem sabe, alguma atriz mexicana como da novela “O diário de Daniela”.

Depois dessa idade, meus pais compraram uma chácara, passei a ter vizinhas com quem brincar e compartilhar os sonhos incansáveis, como dos anos em que insistíamos em montar um clubinho para fazer sabe-se lá o que, mas nunca dava certo, pois todo mundo queria mandar. Os anos foram passando, e aos poucos fui descobrindo os meninos, a princípio eram amigos de futebol (sim, eu jogava futebol), depois percebi que a disputa não era pelo gol, mas sim por atenção daquele monte de testosterona escorrendo suor. Mas ai é outra história, pois a adolescência chegou.

Quando criança via a avó materna que fazia pipas coloridas, cheias de franjas. Que costurava cantando, e assobiava cozinhando. As moedinhas de mesada, o dinheirinho enrolado no papel toalha com um doce bilhetinho de “Vovó te ama” (e até hoje felizmente é assim!). Rosquinhas, bolinhos de chuva, pamonha e os doces de goiaba. Via o avô pacato, as vezes fumando, as vezes descascando sua laranja, as vezes sentado na calçada. Sempre olhando os netos meninos, que exploravam a rua, extrapolando cada dia mais o limite imaginário. O avô que descascava a goiaba e tirava os bigatos pra gente não comer. O Avô que até hoje tem seu lugar único e intransferível na mesa, come feijão com farinha e logo depois da refeição, mais uma laranja para evitar o resfriado. Vitamina C!

Via também a madrinha/tia, chamada de Dinha, que sempre mimou a única menina da família, a ponto de conseguir uma afilhada palmeirense em sua homenagem. Madrinha de Batismo, seria de Primeira Eucaristia se pudesse, foi de Crisma, e se Deus quiser, um dia será de Casamento. Da mãe sempre vale a pena lembrar, mas sua importância não cabe em poucas linhas, seu espaço ocupa um capítulo. O pai, por hora prefiro esquecer.

A maior da sala, SEMPRE. Na pré-escola, a boba que deixou a amiga roubar todas as roupas de sua Barbie, e não fez nada. Ensino fundamental, a gordinha de óculos com lentes fundo de garrafa. Desde a segunda série apaixonada por artes e caprichosa nos desenhos. Fiel as amigas que admirava. Auto-estima baixa pelo pretendente que só via as amigas. Nunca tive vergonha da mãe que me buscava todos os dias na escola. Por vezes me sentia “nerd”, pois era a única que adorava apresentar trabalhos pra sala toda.

Passando o olhar por todos esses 22 anos, minhas principais influências positivas foram definitivamente as mulheres da minha vida: Mãe, Avó Materna e Madrinha (irmã da minha mãe). Com o tempo vieram os professores (sem demagogia), e mais a frente, a igreja que junto de minha família me ensinou a ser gente, mostrou que para viver bem é preciso ter altruísmo e força de vontade, fé e esperança, paciência e lealdade, sinceridade e uma boa dose de honestidade.

Mas a vida não é feita de sonhos bons, a influências mais negativas vieram de meu pai, e de supostos amigos que um dia dei valor exacerbado. Vieram das brincadeiras preconceituosas que afetaram minha personalidade, tornando-me mais ansiosa e intolerante. Vieram dos egoístas que me ensinaram que a vida é tudo ou nada, olho por olho e dente por dente, onde os fins justificam os meios. Vieram de tudo aquilo que um dia quis apagar minha luz.

Ao mesmo tempo em que vejo o mundo como um lugar fétido e asqueroso, onde o ser humano é o responsável por toda bagunça e desilusão. Olho pra arte e vejo a salvação de tudo. Vejo que o homem é feito de anjos e demônios, e que com jeitinho esses demônios são dominados, ou melhor, domesticados. Vejo os que têm muito e nada fazem, e ao lado, os que não têm nada e tudo fazem. Vejo um mundo feito de paradoxos. E ainda assim, me permito pensar positivamente.

            Vejo homens e animais carentes de atenção, na mesma proporção.

Olho para o espelho e vejo um ser humano hibrido demais. Alguém em constante transformação, que é bombardeado de informação e se perde no mundo dos sonhos. Vejo alguém forte, que quer brigar, quer lutar, quer conquistar. Quer um lugar ao sol, um cafuné e portas-retratos com fotos dos futuros netos.

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