O olho da Rua – Eliane Brum

Nesse dia 23 de abril, Dia do Livro, vai minha dica aos amantes do bom e velho jornalismo literário!

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Já no prefácio de Caco Barcellos, é possível prever a qualidade e importância dos textos de Eliane Brum.  A jornalista mostra a essência da profissão, “Se um dia eu voltar a mesma de uma viagem para o Amapá ou para a periferia de São Paulo, abandono a profissão”, e é bem assim que a “coisa” funciona, cada pauta, cada história, cada experiência vivida na profissão de jornalista, é capaz de envolver e mostrar o mundo de perspectivas jamais imaginadas, isso mostra que o repórter não deve apenas saber fazer um bom texto, mas sim também, estar sempre aberto a mudanças e transformações interiores.

É fantástica a sua entrega em cada reportagem, ela sai de sua confortável posição de mera espectadora, para viver e sentir cada detalhe daquilo que vai escrever, gerando assim um relacionamento de confiança entre quem fala e quem escuta. Despe-se de seus conceitos e pontos de vista, nega suas verdades e “atravessa a rua de si mesmo para olhar a realidade do lado de sua visão de mundo”.

Seu texto reflete perfeitamente esse envolvimento, e como disse Barcellos, a entrevista via e-mail, telefone, ou qualquer outro meio tecnológico, além de excluir a população que não tem acesso, também tira do repórter aquilo que lhe é mais valioso, o contato olho no olho, o ouvir de perto, o sentir as emoções que o entrevistado passa quando conta sua história, e todas as informações sensoriais que são muito valiosas para a construção de uma reportagem. As palavras e expressões que Eliane escolhe para compor seus textos são sempre muito bem construídas e pensadas, escancaram a sensibilidade e o dom literário, onde cada linha soa como poesia. A jornalista prova que é necessário “pensar fora da caixa” ao enriquecer suas tramas com citações literárias, pensamentos filosóficos, lições de vida, detalhes importantes (aparentemente banais), contextos históricos, e assim vai tecendo sua colcha de retalhos.

Vejo que o abster-se de si mesmo e ir para o mundo, é como se livrar de um tipo de escravidão (a ditadura de que você precisa ser sempre o mesmo e fazer tudo sempre igual) e se permitir a reinvenção. É como estar nu para vestir as roupas do personagem, sentir na pele suas dores e alegrias. Sair da superficialidade e do comodismo. Duvidas sempre, e ter em mente que a realidade não é feita só de palavras, mas sim de “texturas, cheiros, nuances e silêncios”, deveria ser a nossa principal preocupação como repórteres.

O livro se torna ainda mais rico quando ao fim de cada reportagem, Eliane coloca seu depoimento a respeito das situações que viveu para chegar a aquele resultado. Com ele, percebemos que a tarefa não é fácil, a reportagem não nasce pronta, não é perfeita como imaginamos, e muito menos inofensiva. A reportagem tem vida própria, e quando mal construída, pode destruir o repórter como no caso de “A casa de velhos”, onde Eliane conta que foi a melhor, e pior, reportagem realizada em toda sua vida.

Eliane expõe seus erros e lições aprendidas sem cerimônia, conta da importância de ouvir mais do que falar, ter paciência, sufocar a ansiedade e esperar o “parto da reportagem, pois cada uma tem seu tempo para nascer, respeitar e prestar a atenção a cada gesto, ênfase, trejeitos, linguagem e expressões utilizadas pelos entrevistados, passando tudo para o papel. Importante não esquecer também de citar detalhes do mundo do entrevistado, como o lugar onde vive e todo o contexto em que esta inserido, tomando cuidado sempre para que suas palavras não construa um mito, um folclore, mas sim uma tradução da realidade.

Por vezes o ego do jornalista funciona como uma espécie de cegueira, perde-se muito quando não há entrega, ou se vai para uma entrevista com a reportagem já escrita na cabeça. O processo é complexo, e Eliane afirma, “A gente não mergulha no mundo do outro impunemente. E depois vai embora como se nada tivesse acontecido. Toda viagem é sem volta. E eu ainda estou chegando”.

Nessa viagem, Eliane não fica satisfeita até explorar as últimas possibilidades, utiliza seu tempo para conseguir o máximo de informações possíveis. Na construção do texto, a jornalista se apega ao verdadeiro, não molda as aspas de seus entrevistados, e busca ângulos diferentes para sua pauta, evitando as presunções que por vezes são carregadas de preconceitos. “Quem julga rápido demais – no jornalismo, no tribunal ou na vida – julga errado”, afirma Eliane.

O ego sempre foi aquilo que mais abominei na profissão de jornalista, e por isso, vivo na constante batalha para não cair nessa cilada. Eliane cita uma frase do Mestre Leonam que deveria servir de alerta aos profissionais da área, “Quando o jornalista é mais importante que a notícia, um dos dois não é verdadeiro”. Por fim, concluo minha leitura completamente apaixonada pelo trabalho de Eliane, e pela primeira vez digo que encontrei uma inspiração como jornalista.

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